terça-feira, 29 de maio de 2018

Pesca Ultralight - Prazer e diversão

A Pesca com Equipamento Ultralight


O mundo da pesca esportiva com iscas artificiais é tão amplo e com tantas inovações que muitas vezes a gente se perde. Assim, o melhor é conhecer as modalidades de forma geral mas se especializar naquela que mais nos identificamos. Particularmente, tenho procurado a simplicidade nas coisas visando sempre bom resultado com material minimamente possível. 
Muitos pescadores procuram por grandes troféus. Claro... é a alegria e a recompensa por todo o esforço de uma pescaria bem sucedida, mas não é sempre que isso é possível. Normalmente tem que se deslocar para lugares distantes envolvendo grandes custos, de boa estrutura de pesca, equipamentos adequados mais os reservas e ainda, sem falar da maioria que tem seus compromissos e as tais viagens acabam por ocorrer em período de férias ou em feriados prolongados, ou seja, poucas vezes no ano.
Pensando nisso e sem muita disponibilidade de tempo em viajar para locais mais distantes, há tempos venho pesquisando sobre pescarias que possam ser feitas em locais mais próximos de casa e em condições mais acessíveis; acabei por me deparar com a pesca com iscas artificiais (baitcast) utilizando equipamento super leve, ou o ultralight. Achei o assunto numa matéria na antiga revista Troféu Pesca publicada há anos, escrita por Gustavo dos Reis Filho, o Gugu. Fiquei encantado pois era justamente isso que eu estava procurando!
Equipamento leve, formado por varas de 2 à 6 libras, com comprimento variando entre 5  à 6 pés, de ação média ou rápida, molinete pequeno tamanho 500, linha principal com diâmetro Ø 0,15 à Ø 0,18 e líder de Ø 0,20 ou 0,25mm em mono ou multifilamento. Iscas tipo plug, tanto de superfície como de meia-água, com tamanho máximo de 5cm com peso em torno de 4 gramas, pequenos spinners e os grubs. Estes são os elementos de um conjunto ultralight.
É impressionante como esta pescaria é divertida e eficiente.
Devido a apresentação mais delicada das pequenas iscas na água aliado ao seu nado, o predador se sente enfeitiçado e as atacam vorazmente. Naqueles dias em que o peixe está manhoso, de difícil captura, onde a gente passa do dia trabalhando os plugs grandes e nada de ação, experimente usar um equipamento ultralight; não é raro a gente salvar o dia de pescaria. O poder do conjuntinho ultralight é formidável: não o subestime! Já tirei da água peixe de quase dois quilos pescando assim.


 Tilápia fisgada com ultralight

O importante é a técnica. Conjunto bem ajustado e molinete com a fricção bem calibrada com relação à capacidade da linha são fundamentais. Veja a capacidade da linha principal do molinete, divida por quatro e regule o molinete, ex.: Se alinha principal suporta 2,000Kg, o molinete deverá ser ajustado para tracionar um peso de aproximadamente 500gr. Desta maneira, se a força do peixe exceder esse peso, o molinete libera a linha através do ajuste da fricção no sentido de não deixar a linha romper. Use uma balancinha de gancho ou mesmo um alicate de contenção que possua balança, amarre na ponta da linha do conjunto montado e puxe a vara, sem forçar, até atingir a marca calculada. Assim que passar, vá ajustando a fricção até que este comece a liberar linha suavemente. Pronto, seu equipamento está ajustado.
Um ponto importante é a qualidade do conjunto. Procure usar varas de carbono. O molinete deve ser de boa qualidade, especialmente quanto à fricção, pois esta deverá liberar a linha de forma suave e sem trancos pois, por se tratar de linha muito fina, qualquer defeito fará a linha se romper. Trabalhe com a fricção mais aberta, se for o caso.
São muitos os peixes que você poderá pescar com o ultralight; lambarís, tilápias, traíras, tucunarés, saicangas, jacundás, ou seja, qualquer peixe predador não resiste ao encanto das pequenas iscas.
O trabalho das iscas é um pouco mais sutil, sem grandes movimentos, mas de acordo com as espécies encontradas. Pode ser por recolhimento contínuo, por pequenos toques de ponta de vara ou combinando esses movimentos, alternando a velocidade de recolhimento.
Agora você já tem um idéia do que é a pesca com ultralight.
Uma coisa é certa: as grandes e memoráveis pescarias nem sempre são aquelas em que você precisar ir longe pra buscar o peixe; elas podem ocorrer perto de casa, naquela represa ou lago que ninguém acha que tem peixe, como muitas vezes já aconteceu comigo.
Uma dica: Não despreze aquele lago meio esquecido, onde poucos pensam que nem peixe tem!
Lembre-se ainda: Não existe pescaria de peixe sem graça.... existe sim equipamento super dimensionado e desequilibrado.
Experimente você também pescar com um conjuntinho ultralight e seja feliz!
Veja abaixo dois vídeos meus de pesca com ultralight.
Boas pescarias!

 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Tenkara - O que é isso?


As águas corriam delicadamente pelas pedras do rio, esculpidas através de milhares de anos. O aroma da vegetação molhada subia pela encosta e exalava seu perfume marcante. 

Ao longe, um pescador caminhava pelas águas do pequeno rio, silenciosamente, com um caniço em mãos, a arremessar aqui e acolá, em busca do peixe.
Eram apenas ele e a natureza, nada mais.

Tenkara Fly 

                                Dr.Hisao Ishigaki em ação - Tenkara USA


 Pode-se imaginar que as linhas iniciais desta matéria pertençam a um romance, mas não. Essa é a descrição do cenário onde se passa uma das mais sensacionais formas de pescar: o método de pesca com mosca desenvolvido há alguns séculos no Japão, denominado Tenkara (lê-se tencará), nome literalmente traduzido do japonês como “dos céus”, cujo equipamento se constitui de uma vara telescópica lisa, desenhada exclusivamente para essa modalidade que, em sua ponteira, tem uma linha de nylon  trançada (cônica) ou ainda feita de monofilamento simples (level line)  do mesmo comprimento ou um pouco maior que o da vara, unida a uma linha de náilon fina (tippet) e atada a uma pequenina mosca como isca.



Trata-se de uma modalidade extremamente simples, mas bastante elegante, minimalista em sua essência, que não requer experiência anterior nem aprendizados mirabolantes para seus lançamentos: precisa-se, apenas, uma vara telescópica de equilíbrio e ação próprios para tenkara, um par de calçados para andar pelo rio, uma pequena bolsa para levar iscas e um olhar observador para admirar todo o encanto que a natureza nos proporciona.


Inicialmente criado para se pescar em rios com corredeira, cujo desafio era arremessar a mosca do outro lado da margem com boa apresentação mas sem que a correnteza arrastasse a mosca e a linha, o estilo Tenkara é muito eficiente nessas situações. Por isso eles desenvolveram a ideia de varas longas com linhas leves (chamado high stick no ocidente) pois a vara longa sendo segurada com a ponta para o alto (uns 50° de inclinação ou mais) tornava possível arremessar a mosca no remanso, do outro lado da corredeira, e mantê-la se movimentando na área de ataque do peixe por muito mais tempo. 
Não é propósito desta publicação defender a tese de que o estilo Tenkara é mais eficiente que o estilo Fly fishing ou algo parecido, mas apenas mostrar mais um estilo de pesca com mosca que, mediante observações, a combinação vara/linha/isca foi responsável pela origem de todos os estilos de pesca esportiva hoje conhecidos.  Sabendo-se que a pesca com cana e linha vem dos primórdios, a evolução ocorreu de forma espontânea e natural;  com a idéia de se lançar as iscas à distância maiores, surgindo então duas vertentes - A primeira com a utilização das linhas trançadas para arremessos maiores, dando origem ao que conhecemos hoje como fly fishing - e outra, que ocorreu com o surgimento de linhas finas em nailon enroladas em carretel, dando origem ao estilo conhecido como baitcasting, que nada mais é que o ato de se lançar iscas com equipamento de molinete ou carretilha.


Mas engana-se quem pensa que o estilo Tenkara só se presta à pesca em rios de montanha, como ocorria nos primórdios. Lagos, pequenos açudes e represas são locais onde é possível praticar essa modalidade com muita técnica e eficiência. Atualmente, este estilo  vem tomando espaço no mundo todo, mesmo sendo uma modalidade cuja propagação é muito recente, ou seja, menos de 10 anos, sendo novidade para muita gente. São vários os países que já estão praticando esse estilo: Estados Unidos, Canadá, lugares como a Patagônia, Rússia, Portugal, Espanha, países do Leste Europeu, etc.

Uma história curiosa é que no Japão, origem desse estilo de pesca, a prática foi por muito tempo restrita somente aos pescadores dos rios de montanha japoneses; uma espécie de elite. A propagação da tenkara no Japão ocorreu quando um brasileiro (Daniel Galhardo) radicado nos EUA fundou a empresa TenkaraUSA, se tornando um dos grandes incentivadores da modalidade naquele pais. Isso gerou tanta repercussão que a modalidade se tornou conhecida inclusive no Japão, de forma mais ampla, graças a divulgação vinda de fora. Aqui no Brasil a prática vem ganhando cada dia mais adeptos, já que a maioria dos pescadores brasileiros tiveram como escola a pesca com caniço/linha/isca na captura dos faceiros lambaris, sem falar da nossa excelente estrutura pesqueira e de peixes pra lá de sensacionais!




Originalmente, as varas para Tenkara eram de bambu, feitas por artesãos japoneses, que as produziam como obras de arte. Hoje, essas foram substituídas por caniços fabricados em grafite ou outros materiais de alta tecnologia, como a fibra de carbono, sendo materiais de dureza e elasticidade específicas, com cabos de cortiça ou de espuma. O comprimento das varas moderans varia entre 11 e 14 pés (de 3,3 a 4,2 metros) e o peso é baixíssimo, com centro de gravidade variando entre 17% à 20%. A utilização de varas mais longas descaracteriza essa modalidade e faz parte de outra semelhante, de origem italiana, denominada Valsesiana, que é um método tradicional e antigo da pesca com mosca, típico da região da Valsesia, num vale no sopé do Monte Rosa, no noroeste dos Alpes italianos. Embora a Valsesiana seja um estilo tão antigo como a Tenkara, essas modalidades não foram as únicas praticadas pelo mundo. De forma semelhante, o uso da combinação vara/linha/isca também foram usados nos tempos antigos em outros países da velha Europa e Ásia.



 
A linha de arremesso principal pode ser torcida, lisa cônica ou monofilamento de náilon ou fluorcarbono e tem um tippet de náilon fino atado em sua extremidade. A linha principal é conectada à ponta da vara e tem o mesmo comprimento ou um pouco maior de que a da vara. A linha principal é que leva a energia do arremesso à isca e proporciona um lançamento correto, proporcionando lançamentos com apresentação bastante delicada da mosca ao peixe. As iscas para essa modalidade eram atadas originalmente em soft-hackles para frente no sentido do olho do anzol, resultando em um movimento de pulsação no trabalho da isca. Porém, não há limites para a utilização. Praticamente todas as moscas usadas no flyfishing convencional podem ser usadas com sucesso na Tenkara: ninfas, moscas secas, pequenos streamers, terrestrials, ovas, hair-ball, etc.


Kebaris - assim são chamadas as moscas artificiais no Japão


Existem algumas considerações com relação ao trabalho da mosca: em rios de águas rápidas, deve-se arremessar corredeira acima e deixar que a mosca do tipo ninfa ou mosca seca venha à deriva sem influenciar em sua trajetória; já em águas paradas, onde é necessário imprimir algum movimento, arremessa-se a isca no ponto desejado e se aguarda sua chegada ao fundo ou à meia-água, no caso das ninfas, e se arrasta delicadamente, com o movimento da ponta da vara, sempre atento, pois é geralmente nesta circunstância que o peixe ataca. Pode-se revezar a ação com algumas breves pausas. O mesmo serve para pequenos streamers, onde o movimento de ponta de vara de forma delicada proporciona vida à mosca. Utilizando a mosca seca em águas paradas, a dica é lança-la no ponto desejado e esperar o ataque do peixe, mas também é possível, de maneira muito sutil e delicada, arrastar a mosca seca para formar uma pequena ondulação na água, a fim de imitar o debater-se de um inseto ou a maneira com que o vento o arrasta. 


Atualmente, as varas Tenkara são telescópicas e, quando as retraímos, seu comprimento é bastante reduzido, algo em torno de 20 e 30 centímetros, não exigindo muito espaço para seu transporte durante uma viagem, seja de carro, moto, avião ou bicicleta. A bolsa necessária para armazenar acessórios tais como linhas, moscas e demais equipamentos é igualmente pequena, o que facilita a vida do pescador durante os deslocamentos.

Outro ponto interessante é o baixo custo do equipamento por não havar a necessidade de aquisição de carretilha e linha de arremesso quando se comparado com o fly fishing convencional, cujos valores iniciais para a aquisição da vara Tenkara/Linha principal/Tippt/moscas são bastante acessíveis, com a relação entre o custo/benefício bastante atraente. 

Em águas brasileiras os lambaris, Tilápias, Saicangas, Piabanhas, Pirapitingas-do-sul e até pequenos Tucunarés fazem parte da enorme gama de peixes que podem ser pescados nessa modalidade.

Esse método também pode ser utilizado nos lagos dos pesque-pague, com iscas que imitem ração, ninfas e moscas secas. Os resultados e o divertimento são garantidos. 

E se alguém pensa que essas varinhas só se prestam para embates com peixes de pequeno porte, engana-se. Elas são extremamente poderosas. Há relatos de pescadores que já fisgaram trutas com quase três quilos e conseguiram tirá-las da água. Claro que eles demonstraram grande habilidade para tal façanha, mas dificilmente conseguiriam caso utilizassem varas pouco resistentes.



A modalidade Tenkara é muito interessante quando usada na captura dos pequenos peixes, aqueles que normalmente estão perto de nossa casa. Sendo considerada como uma forma ultralight de pesca com mosca, a emoção de se fisgar os pequenos é muito aumentada neste estilo, justamente por sua delicadeza. Imagine a adrenalina que este estilo nos proporciona!

Assim, não deixe de conhecer melhor e de experimentar o estilo tenkara nas suas próximas pescarias. Tenho certeza de que você vai se surpreender!

Assista ao vídeo sobre Tenkara abaixo.










Texto: Reginaldo Bueno das Neves, com fragmentos retirados da matéria para a Revista EcoAventura de minha autoria.

Fotos e ilustrações: TenkaraUSA, internet, Tenkara in Siberian.